... a defesa das ideias


Às quartas • 19/05/2002
António Mendes Lopespor António Mendes Lopes
(professor do Departamento de Desporto da ESE)
 

As crianças cresceram!


As crianças do ensino primário mudaram. Isso entende-se, isso vê-se. As meninas influenciadas pelos seus ídolos sexy desejam ter um ar de mais velhas. Quanto aos rapazes, esses vestem camisolas com a esfinge dos seus heróis utilizando muito frequentemente a violência como forma de comunicação.

Ao verem-se as crianças de hoje nas escolas a insultarem-se entre si, e ao constatar-se que muitos dos professores e dos vigilantes ficam completamente indiferentes face às consequências destes actos, pode-se concluir que não nos apercebemos que estamos perante crianças perturbadas na sua inocência e que, desde muito cedo, pretendem “jogar” como os adultos.

É sabido que “as crianças não acreditam mais no pai Natal”. Elas parecem ter perdido a sua infantilidade, para viver as coisas que outrora outras crianças da mesma idade nunca imaginou poder ser feito.

Algumas das crianças de hoje já arrastam em si alguns factores de uma enorme responsabilidade; estão mais preocupadas com problemas que muitas vezes lhes são transmitidos por parte dos pais.

É conhecido que a tendência das crianças para a agressividade provêm dum ambiente difícil, habitualmente caracterizado por contextos de disputa. É ao absorverem estes exemplos que elas manifestam na escola comportamentos desviantes.

Costuma-se dizer que fazemos o que aprendemos. Se por exemplo os pais utilizam ou proporcionam aos olhos dos seus filhos, episódios de violência, as crianças farão o mesmo no seu lugar privilegiado de aprendizagens - a escola. As crianças que vivenciam momentos de menos afecto e comunicação, são frequentemente pouco respeitadoras para com a autoridade. Este comportamento provém num grande número dos casos de um tipo de relação que está presentemente tão em voga nas famílias, a  relação dos pais-amigo. Quer dizer em casa os pais têm dificuldade em encontrar o limite entre a autoridade e a amizade. Não tendo restrições em casa, as crianças não compreendem por que haverão de as ter na escola ou noutros locais.

Esta situação é, antes de mais, um problema da família. Ter os pais como recurso de comunicação  e por vezes de apoio terapêutico, é antes de tudo ter pais disponíveis para estarem mais receptivos e capazes de ouvir e de desejar mudar a sua atitude.

O excesso de “mimos”, de superprotecção para com os filhos e tudo o que se lhes compra para o seu conforto, é, como se sabe, uma forma de compensação por os pais quase nunca estarem no momento e no lugar certo com as crianças. É sabido que dar tudo aos filhos não é a melhor solução. Seria bom não continuarmos a olhar para o lado como se não percebêssemos que as crianças cresceram e que será bastante preocupante se não compreendermos que ainda poderão crescer muitíssimo mais. Se não estivermos ao seu lado agora, provavelmente, mais tarde já nem sequer as reconhecemos como nossos filhos.